domingo, 6 de novembro de 2011

Cataguases

Como diria Ascânio Lopes:

"Em ti se dorme tranquilo sem guardas-noturnos.
Mas com o cri-cri dos grilos,
o ram-ram dos sapos.
O sono é tranquilo como o de uma criança de colo.
Vale a pena viver em ti.
Nem inquetude.
Nem peso inútil de recordações,
mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas."

sábado, 24 de setembro de 2011

Respirar, caminhar, movimentar os membros, dor no estômago, dor de cabeça, sorrir, chorar, enrubescer, segurar, apalpar, sentir o cheiro, amar, odiar, sentir fome, ter orgulho, achar graça, entristecer, arrepender-se, abraçar, beijar, trabalhar, pagar as contas, comprar comida, abrir garrafa de leite, abrir a torneira, trancar a porta, desesperar-se, assistir televisão, pensar, mentira, verdade, mais-valia, alteridade, feio, belo, o inapreensível existir, o medo, a consciência do vazio, a beleza de tudo, o orgulho, a categórica face da

morte.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

...

E pensar que por um momento esqueci quão maravilhoso é o existir. Desculpe vida, já passou esse meu acesso de loucura.

sábado, 10 de setembro de 2011

Carta a Brasília

Eu admito que te traí. Quando vi pela janela do avião as suas matas secas e estradas poeirentas quis voltar imediatamente para os braços do mar. Eu não faço o tipo volúvel que larga um amor apenas pela beleza estonteante de outro. Acontece que muitas das coisas que antes me faziam te amar hoje me dão medo e vontade de ir embora. Aqui eu só vejo um monte de obrigações, decepções, uma alegria ou outra, mas é tudo bem mais ou menos. Em compensação acabei de voltar de um sonho e pulsa em mim a visão ainda fresca de uma vida outra. Mas está tudo bem, Brasília. Não serei covarde como em outras vezes: ficarei aqui contigo.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

...

A vida é feito passarinho
É como a flor e o espinho:
Tem o cantar e o sofrer

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Recado

Muito bonito você fica aqui na cidade maravilhosa, viu? Gostei do jeito que os cariocas te arrumaram: você parece pronto pra uma eterna festa. E também todo mundo gosta de ti por essas bandas, qualquer coisinha falam de você, mal vem o sol e já correm pro seu abraço. Tem muita alegria por aqui mesmo, é por isso que você faz questão de brilhar tanto. Fico feliz de estar em sua presença, acho que te amo muito.

Você é todo engraçado: parece um monte de rios.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O amor e a liberdade

Digamos que José era um apaixonado. Desde sempre o rapaz foi um amante das coisas todas que porventura existissem. As pedras no chão, o olhar de uma moça, o tilintar das chaves de um senhor na rua: tudo era objeto não só de atenção, mas de um sentimento que o transcendia . A verdade é que muito lhe doía a indiferença tamanha das pessoas com o existir em absoluto. Certa feita, uma senhora que caminhava pela calçada seguiu seu obtuso caminho sem dar a mínima atenção a um caco de vidro que a tudo contemplava escorado na raiz de uma árvore. Foi a gota d'água: José passou a recolher tudo aquilo que antes padecia no esquecimento. Ele guardava pedras pequenas - dessas que se confundem com grãos de areia - e pedras grandes, pneus de carro usados, canetas sem tinta, sorrisos não correspondidos. A tudo isso, reservava um carinho sem precendentes.

Acontece que a cada dia José via menos alegria a sua volta. As coisas que ele tanto amava não demonstravam gratidão, mas desespero: o preocupar-se de José lhes tirava a liberdade. Talvez o que mais quisesse o caco de vidro era ver o tempo passar escorado sob a sombra da árvore. O rapaz não pensou duas vezes e desfez-se de tudo que antes havia aprisionado. Ficou tão leve que virou pássaro e voou: passou a amar o infinito.